terça-feira, 6 de abril de 2010

ONDJAKIi


Ndalu de Almeida, mais conhecido por seu pseudônimo Ondjaki, nasceu em 1977, em Luanda, Angola.
Fez estudos em Luanda e licenciou-se em Sociologia, em Lisboa. Tem experiência na área do teatro e da pintura.

Em 2000, obtém o segundo lugar no concurso literário António Jacinto (Angola), e publica o primeiro livro (Actu Sanguíneu, poesia, 2000).


Foi laureado pelo Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco 2007, pelo seu livro Os da Minha Rua. Recebeu (na Etiópia) o prémio Grinzane For Best African Writer 2008.
Ondjaki é prosador. Às vezes poeta. Escreve para cinema e co-realizou um documentário com Kiluanje Liberdade sobre a cidade de Luanda intitulado Oxalá cresçam Pitangas – histórias de Luanda, em 2006.

É membro da União dos Escritores Angolanos e da Associação Protectora do Anonimato dos Gambuzinos.
Está traduzido em francês, espanhol, italiano, alemão, inglês e chinês.


____OBRAS_____________________________________________


BOM DIA CAMARADAS

Infância é um antigamente que sempre volta.
Este livro é muito disso: busca e exposição dos momentos, dos cheiros e das pessoas que fazem do meu antigamente, numa época em que Angola e os luandeses formavam um universo diferente, pelo peculiar. Tudo isto contado pela voz da criança que foi; Tudo isto embebido na ambiência dos anos oitenta: o monopartidarismo, os cartões de abastecimento, os professores cubanos, o hino cntado demanã e a nossa cidade de Luanda com a capacidade de transformar mujimbos em factos. Todas estas coisas, mais o camarada António...
Esta estória ficcionada, sendo também parte da minha história, devolveu-me memórias carinhosas. Permitiu-me fixar em livro, um mundo que é já passado. Um mundo que me aconteceu e que, hoje, é um sonho saboroso de lembrar.

Ondjki
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MOMENTOS DE AQUI

A Tia Fatucha apressou-se em ocupar o seu lugar. Esperou que o polícia se pusesse em posição de conduzir mas não o via chegar. Olhou para trás e viu-o enconstado ao porta-bagagens. «Então, não vamos?» disse para a cera dos ouvidos do polícia. «Mas eu num sei conduzir!» confessou, irritado, o jovem polícia. Lá fizeram a troca e puseram-se a andar. No interior da viatura respirava-se um ar irrespirável, repleto de catingas profundamente entranhadas no couro gasto dos assentos, nas almofadas nojentas e nos tapetes imundos que lá repousavem. Devagar, habituando-se ao carro-lixeira, a Tia Fatuche olhava com certa intermitência para o débil agente. Era escuro como o breu, o que se afigurava uma enorme desvantagem para quem possuía lábiose ramelas tão florescentes. Ele, no entanto, assobiava. Nos tons mais elevados mexia as orelhas de uma maneira estranha e ridícula que, para além disso tudo, abria o orifício do ouvido permitindo ver uma substância que ultrapassava já o conceito da cera normal de todos os ouvidos. Nestas divagações anatómicas uma buzina atropelou os ouvidos da Tia Fatucha. Com uma insistência constante, um senhor buzinava sem parar e fazia sinais parar que encostassem. «Encoste, encoste...», encorajou-a o polícia, «eu vou já lhe altuar...!»

Excerto do conto O autoclismo da Tia Fatucha.

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HÁ PRENDISAJENS COM O XÃO
(O Segredo Húmido da Lesma & Outras Descoisas)

CHÃO

  palavras para manuel de barros

apetece-me des-ser-me;
reatribuir-me a átomo.
cuspir castanhos grãos
mas gargantadentro;
isto seja: engolir-me para mim
poucochinho a cada vez.
um por mais um: areios.
assim esculpir-me a barro
e re-ser chão. muito chão.
apetece-me chãonhe-ser-me.



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QUANTAS MADRUGADAS TEM A NOITE

Num tenho dinheiro, num vale a pena te baldar. Mas, epá, vamos só desequilibrar umas birras; sentas aí, nas  calmas, eu te pago em estórias, isso mesmo, uma pura estória daquelas com peso de antigamente, nada de invencionices de baixa categoria, estorietas, coisas dos artistas: pura verdade, só acontecimentos factuais mesmo. A vida não é um carnaval? Vou te mostrar alguns dançarinos, damos, damas, diabo e Deus, a maka da existência.
Transformo só o material pra lhe dar forma, utilidade. O artista molha as mãos para trabalhar o destino do barro? Eu molho o coração com álcool pra fazer castelo das areias em cima das estórias...
Uma noite, quantas madrugadas tem?
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Excerto da Obra

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quantas madrugadas tem a noite esstá destinado a ser um marco na literatura angolana e na literaturade língua prtuguesa em geral. Com uma extraordinária mestria narrativa, Ondjaki conta aqui uma história em que não se sabe o que admirar mais, se a fulgurante imaginação do autor, se a sua capacidade par ciação de tipos e situações carregados de significado, se a sua capacidade para elevar a linguagem.
O humor, a farsa, o lirismo, a tragédia, o horror, todos estes sentimentos são aqui convocados e expostos, uma história, na Luanda dos dias de hoje.

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E SE AMANHÃ O MEDO


Quando retomou das abstinências do hipnotismo, encontrava-se já à mesa, tonta mas com uma sensação de aconhego no peito. Era, fundo, o que trazia todas as pessoas àquele local: a magia de renovar o órgão primeiro, o bombeador de sensações, a casa mais íntima de um ser humano.
― Não fale. Poupe as forças ― disse o velho.
Quando, no fim da refeição, voltou a fazer um chá, começou:
― Leve isto consigo ― entregou-lhe um pequeno aglomerado de folhas, escrito à mão num cuidadoso latim. ―Vai servir-lhe para ser feliz!
― E o que é? — a mulher, sensível, curiosa.
— Todos os meus apontametos sobre a sensibilidade dos porcos. O que é dizer: você é a primeira pessoa a levar um coração com o respectivo manual de felicidade.
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Excerto do conto Coração de Porco 
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«De obra para obra, este autor multifacélico, que ensaia a poesia, a prosa e também a pintura, mas que sonha com o teatro e com o cinema, tem mostrado maior firmeza e maturidade. E tem aquilo que muitas vezes infelizmente se perde com os anos de trabalho permanete, o prazer da escrita e da sua descoberta. O nosso autgor tem também aquilo que destingue os pioneiros, os desbravadores de novos caminhos, o gosto do risco. Esperemos que saiba sempre aliar o estudo e a pesquisa com o sentimento de prazer, que fornece a frescura e a alegria de umtexto. Ondjaki é um jovem que escreve uma ficção viçosa e jovem. Espero que mantenha este viço e juventude quando tiver oitenta anos e atrás de si uma prole de cem obras sempre diferentes. Inch´Allah»

Pepetela

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BIBLIOGRAFIA
Actu Sanguíneu (poesia, 2000)
- Menção honrosa no Prémio António Jacinto (Angola); 


Bom Dia Camaradas (romance, 1.ª edição, 2001; 3.ª edição, 2007)

Momentos de Aqui (contos; 1.ª edição, 2001; 4.ª edição, 2008)

O Assobiador (novela, 1.ª e 2.ª edições, 2002)

Há Prendisajens com o Xão (poesia; 1.ª edição, 2002; 3.ª edição, 2008)

Ynari: A Menina das Cinco Tranças (infantil-juvenil; 1.ª edição, 2004; 2.ª edição, 2006)

Quantas Madrugadas Tem A Noite (romance; 1.ª edição, 2004; 3.ª edição, 2008)

E se Amanhã o Medo (contos; 1.ª e 2.ª edições, 2005; 3.ª edição, 2007);

- Prémio Literário Sagrada Esperança 2004 (Angola);
- Prémio Literário António Paulouro 2004;


Os da minha rua (contos; 1.ª, 2.ª  e 3.ª  edições, 2007;)

AvóDezanove e o segredo do soviético (romance, 2008)

O leão e o coelho saltitão (infantil, 2008)

Materiais para confecção de um espanador de tristezas (poesia, 2009)

      Os vivos, o morto e o peixe-frito (ed. brasileira / teatro, 2009).

      O voo do Golfinho (infantil, 2009)





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