Mostrar mensagens com a etiqueta Mia Couto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Mia Couto. Mostrar todas as mensagens

sábado, 1 de janeiro de 2011

TERRA SONÂMBULA SELECCIONADO NO BRASIL PARA O VESTIBULAR 2010



O Centro de Selecção da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) escolheu o romance «Terra Sonâmbula», de Mia Couto, para fazer parte do Vestibular 2010.

A obra do escritor moçambicano faz parte de uma lista de livros onde integram: «Macunaíma», de Mário de Andrade; o Episódio «A máquina do mundo» (fragmento de Os Lusíadas), de Luís Vaz de Camões; «Pequenas Criaturas», de Rubem Fonseca; e «Poemas rupestres», de Manuel de Barros.
Ver artigo completo aqui.
De recordar que Terra Sonâmbula foi considerado por júri especial da Feira do Livro de Zimbabwe um dos doze melhores livros africanos do século XX.
É um romance em abismo e esperança, escrito numa prosa poética. Mia Couto se vale também de recursos do realismo mágico e da arte narrativa tradicional africana para compor esta bela fábula.
A obra narra a história do velho Tuahir e do menino Muidinga, que servem-se de um machimbombo incendiado em uma estrada poeirenta como seu abrigo, em fuga da guerra civil devastadora que grassa por toda parte em Moçambique. Como se sabe, depois de dez anos de guerra anticolonial. O veículo está cheio de corpos carbonizados. Mas há também um outro corpo à beira da estrada, junto a uma mala que abriga «os cadernos de Kindzu», o longo diário do morto em questão. A partir daí, duas histórias são narradas paralelamente: a viagem de Tuahir e Muidinga e, em flashback,o percurso de Kindzu em busca dos naparamas, guerreiros tradicionais, abençoados pelos feiticeiros, que são, aos olhos do garoto, a única esperança contra os senhores da guerra.

ROMANCES DE MIA COUTO

Fotografia de Alfredo Cunha


______________________________________________________
TERRA SONÂMBULA 

Esta obra narra a história do velho Tuahir e do menino Muidinga, que servem-se de um machimbombo incendiado em uma estrada poeirenta como seu abrigo, em fuga da guerra civil devastadora que grassa por toda parte em Moçambique. Como se sabe, depois de dez anos de guerra anticolonial. O veículo está cheio de corpos carbonizados. Mas há também um outro corpo à beira da estrada, junto a uma mala que abriga «os cadernos de Kindzu», o longo diário do morto em questão. A partir daí, duas histórias são narradas paralelamente: a viagem de Tuahir e Muidinga e, em flashback,o percurso de Kindzu em busca dos naparamas, guerreiros tradicionais, abençoados pelos feiticeiros, que são, aos olhos do garoto, a única esperança contra os senhores da guerra. 

- Estou-lhe a dizer, miúdo: vamos instalar casa aqui mesmo.
- Mas aqui? Num machimbombo todo incendiado?
- Você não sabe nada, miúdo. O que já está queimado não volta a arder.
(...) - Mas na estrada não é perigoso, Tuahir? Não é melhor esconder no mato?
- Nada. Aqui podemos ver os passantes. Está-me compreender?
- Você sempre sabe, Tuahir.
- Não vale a pena queixar. Culpa é sua: não é você que quer procurar seus pais?
- Quero. Mas na estrada quem passa são bandos.
- Os bandos se vierem, nós fingimos que estamos mortos. Faz conta falecemos junto com o machimbombo.
Excerto do cap. I. «A estrada morta»

                                          
                      
------------
Terra Sonâmbula foi considerado por júri especial da Feira do Livro de Zimbabwe um dos doze melhores livros africanos do século XX. 

__________________________________________________________ 
A VARANDA DO FRANGIPANI 

A narrativa de A Varanda do Frangipani decorre na Fortaleza de S. Nicolau. A fortaleza há muito que deixou de ser reduto de defesa e ocupação estrangeira para se transformar num asilo de velhos. A trama policial, as reflexões sobre a guerra e sobre a paz, o Universo mágico, a riqueza de personagens, aliados a uma narrativa pujante e amadurecida, fazem deste livro uma das mais belas obras de Mia Couto.

O culpado que você procura, caro Izidine, não é uma pessoa. é a guerra. Todas as culpas são da guerra. Foi ela que matou Vasco. Foi ela que rasgou o mundo onde a gente idosa tinha brilho e cabimento. Estes velhos que aqui apodrecem, antes do conflito eram amados (...)
Vê aquele edifício, além, todo em ruínas? Aquilo já foi uma enfermaria. Era ali que eu trabalhava. Recebia medicamentos da cidade. Mas o asilo foi atacado, semanas após eu ter chegado. Os bandos entraram aqui, roubaram, mataram. Lançaram fogo sobre a enfermaria. Morreram duas velhas. Não morreram todos graças a quem? Espante-se, caro Izidine. Graças a Vasco Excelêncio. Se admira? Pois foi Vasco que entrou pelas chamas adentro, arregaçando coragem e salvando os outros doentes. Do edifício restaram chamuscadas paredes.
Depois da tragédia, eu fiquei como aquelas ruínas. Sobretudo quando soube que a principal razão do ataque tinha sido eu própria, Marta Gimo. Os bandidos me queriam raptar, conduzir-me para os acampamentos deles. Levei tempo a refazer-me daquele incidente. Nunca me refiz totalmente. A guerra deixa em nós feridas que nenhum tempo pode cicatrizar.
----------------------
Excerto do capítulo: A Confissão de Marta

___________________________________________________________ 
VINTE E ZINCO 

Numa pequena cidade do Moçambique colonial a violência sustenta um mundo dividido - o dos naturais, em baixo, e, sobre ele, o peso do opressor. De súbito, lá longe, na capital do Império, a terra treme, o pilar da sustentação abate-se, e na pequena cidade colonial o efeito é catastrófico. Das profundezas ergue-se o novo mundo. Do velho salvar-se-á alguém?
--------------------

- Me diga, senhor Lourenço. Com esta nova situação, o que é que vai fazer?
- Sei lá.
- Mas tem que saber. Ou os outros vão saber por si.
- Isto não vai ficar assim. A minha gente não vai deixar isto ficar assim.
- O senhor já não tem gente nenhuma, senhor Castro. Vá-se embora daqui, sem mais demora.
- Não posso, ainda tenho coisa a fazer aqui.
- Ao menos, deixe eu levar Dona Margarida, sua mãe. Eu acompanho a senhora para Pebane. Lá, a senhora apanha um barco. E o senhor vai junto com ela.
- Eu não vou, fico por aqui. Vou morrer aqui, já sei.
- Deixe disso, senhor Castro. Ainda lhe vou convidar para a festa da nossa Independência.
- Preferia morrer a ver essa tragédia.
- Este vinte e cinco ainda não é nada. Hão de vir outros vinte e cincos, mais nossos, desses em que que só há antes e depois.
- Prefiro morrer.


Excerto do texto «28 de Abril»





____________________________________________________________ 
  O ÚLTIMO VOO DO FLAMINGO

Tizangara, primeiros anos do pós-guerra. Nesta vila tudo parecia correr bem. Os capacetes azuis já haviam chegado para vigiarem o processo de paz, e o dia-a-dia da população corria numa aparente normalidade. Mas por razões que quase todos desconheciam, esses mesmos capacetes azuis começaram, de súbito, a explodir. Massimo Risi, o soldado italiano das Nações Unidas destacado para investigar estas estranhas explosões, chega a Tizangara. Colocam-lhe um tradutor à disposição, e é através do relato deste que tomamos conhecimento dos factos. Entramos num mundo de vivos e de mortos, de realidade e de fantasia, de feitiços e de sobrenatural. A verdade e a ficção passam por nós em personagens densamente construídas, de que o feiticeiro Andorinho, a prostituta Ana Deusqueira, o padre Muhando, o administrador Estêvão Jonas e a sua mulher Ermelinda, a velha-moça Temporina, o velho Sulplício, são apenas alguns exemplos... 

O mistério adensa-se. Os soldados da paz morreram ou foram mortos?
____________________________________________________________
 UM RIO CHAMADO TEMPO, UMA CASA CHAMADA TERRA

Um jovem estudante universitário regressa à sua ilha-natal para participar no funeral de seu avô Mariano. Enquanto aguarda pela cerimónia ele é testemunha de estranhas visitações na forma de pessoas e de cartas que lhe chegam do outro lado do mundo. São revelações de um universo dominado por uma espiritualidade que ele vai reaprendendo. À medida que se apercebe desse universo frágil e  ameaçado, ele redescobre uma outra história para a sua própria vida e para a da sua terra. 

A pretexto do relato das extraordinárias peripécias que rodeiam o funeral, este novo romance de Mia Couto traduz, de uma forma a um tempo irónica e profundamente poética, a situação de conflito vivida por uma elite ambiciosa e culturalmente distanciada da maioria rural.

Uma vez mais, a escrita de Mia Couto leva-nos para uma zona de fronteira entre diferentes racionalidades, onde percepções diversas do mundo se confrontam, dando conta do mosaico de culturas que é o nosso país e das mudanças profundas que atravessam a sociedade moçambicana actual.

___________________________________________________________
O OUTRO PÉ DA SEREIA 

Viagens diversas cruzam-se neste romance: a de D. Gonçalo da Silveira, a de Mwadia Malunga e a de um casal de afro-americanos. O missionário português persegue o inatingível sonho de um continente convertido, a jovem Mwadia cumpre o impossível regresso à infância e os afro-americanos seguem a miragem do reencontro com um lugar encantado.

Outras personagens atravessam séculos e distâncias: o escravo Nimi, à procura das areias brancas da sua roubada origem. A própria estátua de Nossa Senhora, viajando de Goa para África, transita da religião dos céus para o sagrado das águas. E toda uma aldeia chamada Vila Longe atravessa os territórios do sonho, para além das fronteiras da geografia e da vida.

As diferentes viagens entrecruzam-se numa narrativa mágica, por via de uma mesma escrita densa e leve, misterios e poética de um dos mais consagrados escritores da língua portuguesa.

____________________________________________________________


VENENOS DE DEUS, REMÉDIOS DO DIABO

O jovem médico português Sidónio Rosa, perdido de amores pela mulata moçambicana Deolinda, que conheceu em Lisboa num congresso médico, deslocou-se como cooperante para Moçambique em busca da sua amada. Em Vila Cacimba, onde encontra os pais dela, espera pacientemente que ela regresse do estágio que está a frequentar algures. Mas regressará ela algum dia? Entretanto vão-se-lhe revelando, por entre a névoa que a cobre, os segredos e mistérios, as histórias não contadas de Vila Cacimba – a família dos Sozinhos, Munda e Bartolomeu, o velho marinheiro, o administrador, Suacelência e a sua Esposinha, a Misteriosa mensageira do vestido cinzento espalhando as flores do esquecimento.

____________________________________________________________
JESUSALÉM

Jesusalém é seguramente a mais madura e mais conseguida obra de um escritor em plena posse das suas capacidades criativas. Aliando uma narrativa a um tempo complexa e aliciante ao seu estilo poético tão pessoal, Mia Couto confirma o lugar cimeiro de que goza nas literaturas de língua portuguesa.

A vida é demasiado preciosa para ser esbanjada num mundo desencantado, diz um dos protagonistas deste romance. A prosa mágica do escritor moçambicano ajuda, certamente, a reencantar este nosso mundo.

Acompanhe ainda o texto de apresentação de Ungulani Ba Ka Khosa e as imagens do lançamento do livro.

POESIA DE MIA COUTO







Fotografia de Alfredo Cunha

________________________________________________
idades

O espelho

Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
ao tentar mostrar que sou eu.

Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem
deixaram-me, a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.

A idade é isso: o peso da luz
com o que nos vemos.



cidades

O urbano visita a savana

Olhou a paisagem
e seus infinitos
Despois de inspirar fundo,
perguntou

-A imagem está óptima.
Mas, não tem legendas?




Divindandes

Depoimento 

Eis o meu contento:
nunca pisei chão que fosse meu.

E o quanto sonhei
foi um desfolhar de estação,
uma pluma sem destino.

Eu vi o vazar dos rios
e vivi sem saber onde eu estava vivo.

E amei
como se nunca antes
ninguém tivesse amado.

Eu sonhei
como se fosse o último primeiro homem.
_________________________________________________

Raiz de Orvalho
....
Assim me debruço
na janela do poema
escolho a minha própria neblina
e permito-me ouvir
o leve respirar dos objectos
sepultados em silêncio
e eu invento o que escrevo
escrevendo para me inventar
e tudo me adormece
porque tudo desperta
a secreta voz da infância

Amam-me demasiado
as coisas de que me lembro
e eu entrego-me
como se me furtasse
à sonolenta carícia
desse corpo que faço nascer
dos versos
a que livremente me condeno.

terça-feira, 6 de abril de 2010

MIA COUTO


BIOGRAFIA
Filho de Fernando Couto e Maria de Jesus, Mia Couto nasceu a 5 de Julho de 1955 na cidade da Beira.
De 1971 a 1974, frequentou na Universidade de Lourenço Marques (actual Universidade Eduardo Mondlane) o curso de Medicina, que interropeu para ingressar na actividade jornalística. Foi, sucessivamente, director dos seguintes órgão de comunicação social:
Agência de Informação de Moçambique (AIM), de 1976 a 1979; 
revista Tempo, de 1979 a 1981 e
jornal Notícias, de 1981 a 1985.
Retomando os seus estudos na Universidade Eduardo Mondlane (UEM), onde terminou em 1989 o curso de Biologia, passando a dedicar-se à área de Ecologia. 
Foi professor da cadeira com esse nome em diversas faculdades da UEM, e, ligado à empresa Impacto, Projectos e Estudos Ambientais, de que foi fundador e onde se encontra a trabalhar até ao momento, dedicando-se a estudos de impacto ambiental. Menteve, no entanto, colaboração regular e dispersa com diversos órgãos de informação nacionais e estrangeiros.

Mia Couto é actualmente o escritor moçambicano mais traduzido e divulgado no estrangueiro. Suas obras encontram-se traduzidas em mais de vinte línguas, dentre as quais o inglês, francês, alemão, italiano, sueco, grego, croata e hebreu, para citar apenas algumas. É membro da Académia Brasileira de Letras, e é um dos escritores mais vendidos em Moçambique e Portugal.
Várias obras suas foram adaptadas para teatro, bem como para cinema, sendo de referenciar a sua participação inclusivamente como guionista.

BIBLIOGRAFIA
Raiz de Orvalho (poesia) – 1983;
Vozes Anoitecidas (contos) – 1987;
Cronicando (crónicas) – 1989;
Cada Homem é Uma Raça (contos) – 1990;
Terra Sonâmbula (romance) – 1992;
Estórias Abensonhadas (contos) – 1994;
A Varanda do Frangipani (romance) – 1996;
Contos do Nascer da Terra (contos). – 1997;
Mar Me Quer (novela) – 1998;
Raiz de Orvalho e Outros Poemas (poesia) – 1999;
Vinte e Zinco (novela) – 1999;
O Último Voo do Flamingo (romance) – 2000;
Na Berma de Nenhuma Estrada (contos) – 2001;
O Gato e o Escuro (conto infantil) – 2001;
Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra (romance) – 2002;
O País do Queixa-Andar (crónicas) – 2003;
O Fio das Missangas (contos) – 2004;
A Chuva Pasmada (novela) – 2004;
Pensamentos (ensaios) – 2005;
O Outro Pé da Sereia (romance) – 2006;
Idades Cidades Divindades (poesia) – 2007;
Venenos de Deus Remédios do Diabo (romance) – 2008;
Se Obama Fosse Africano e Outras Interinvenções(2009);
O Beijo da Palavrinha, (no Brasil) ( 2008) e
Jesusalém (2009)

PRÉMIOS E DISTINÇÕES
2007 - Prémio União Latina de Literaturas Românicas, tornado-se o primeiro escritor de África a receber este prémio, em Roma, Itália;
2007 - Prêmio Passo Fundo Zaffari e Bourbon de Literatura, atribuído ao romance O Outro Pé da Sereia, na XII Jornada Nacional de Literatura, em Passo Fundo, Rio Grande do Sul, Brasil;
2003 - Prémio Literário José Craveirinha, atribuído pela Associação de Escritores Moçambicanos ao romance Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra (ex-aequo com Paulina Chiziane);
2002 - Noma African Awards, atribuído ao romance Terra Sonâmbula, considerado um dos 12 melhores livros africanos do século XX;
         - Prémio África Hoje, atribuído pela revista África Hoje, em Outubro de 2002;
         - Prémio Procópio de Literaura, Lisboa, 2002;
2001 - Prémio Mário António de Ficção, atribuído pela Fundação Gulbenkian. Mia Couto foi o primeiro galardoado com este prémio;
2000 - Prémio ALOA, atribuído na Dinamarca, ao romance Terra Sonâmbula, considerado o melhor livro do Terceiro Mundo;
         - Nomeação para o Caine Prize for African Literature pelo conto The Russian Princess, tradução inglesa de A Princesa Russa, Londres;
1999 - Prémio Consagração, atribuído pela FUNDAC, em Maputo;
         - Prémio Virgílio Ferreira, edição de 1998, atribuído pela Universidade de Évora, Portugal.
1996 - Prémio «Os Melhores de 95», atribuído ao romance Terra Sonâmbula pela Associação de Críticos de Arte, de S. Paulo, Brasil;
          - Nomeação para os International Impact Dublin Leterary Awards, pelo livro Every man is a Race, tradução inglesa do livro Cada Homa é uma Raça;
1995 - Prémio Nacional de Literatura, atribuído pela Associação de Escritores Moçambicanos (AEMO) ao romance Terra Sonâmbula;
1993 - Grande Prémio de Ficção Narrativa atribuído pela Associação de Escritores Moçambicanos (AEMO) a Vozes Anoitecidas (Ex-aequo com Ungulani Ba Ka Khosa);
1991 - Prémio Nacional Areosa Pena, atribuído pela Organização Nacional de Jornalista (ONJ).



OBRAS RECENTES
__________________________________________________________


JESUSALÉM


A vida é demasiado preciosa para ser esbanjada num mundo desencantado, diz um dos protagonistas deste romance.
A prosa mágica de Mia Couto ajuda, certamente, a reencantar este nosso mundo.


Para ver artigo completo, clique aqui.



__________________________________________________________                       
E SE OBAMA FOSSE AFRICANO?
E Outras Interinvenções

As intervenções abordam temas que vão da política à literatura, da cultura à antropologia, mas todos eles confirmam como o escritor moçambicano faz da sensibilidade poética um modo de entender a complexidade do nosso tempo


Para ver artigo completo, clique aqui

 
__________________________________________________________
VENENOS DE DEUS, REMÉDIOS DO DIABO

Um médico português resolve tornar-se cooperante em Vila Cacimba, onde pretende encontrar a mulata Deolinda que conhecera em Lisboa e por quem se perdera de amores.
Enquanto aguarda a chegada da amada, que terá supostamente partido para frequentar um estágio em parte incerta, o médico Sidónio Rosa vai descobrindo os segredos e mistérios que envolvem a família de Deolinda


Para ver artigo completo, clique aqui.


Sobre Mia Couto, pode ainda consultar por género:
          Contos e Novelas;
          Crónicas;
          Ensaios;
          Poesia e
          Romances
    

MAIS UM PRÉMIO PARA TERRA SONÂMBULA E MIA COUTO EDITADO NO MÉXICO


MAIS UM PRÉMIO PARA TERRA SONÂMBULA

O Filme Terra Sonâmbula de Teresa Prata foi, de novo, premiado em festivais internacionais de cinema. Desta vez, o filme que é uma adaptação do romance do moçambicano Mia Couto, foi duplamente premiado no 4° Festival do Paraná de Cinema Brasileiro Latino in Curitiba, Brasil. O filme recebeu o prémio do Melhor Filme e do melhor roteiro.

No evento cinematográfico concorreram seis longas-metragens brasileiras e cinco provenientes de Itália, Moçambique, México, Bolívia e Argentina.

De acordo com a cineasta, o filme premiado já tem distribuidor no Brasil (Panda Filmes) e será exibido em breve nos cinemas do país.

O filme já se apresentou em mais de 20 festivais internacionais e recebeu o prémio FIPRESCI para o melhor filme da Federação Internacional de Críticos de Cinema (Kerala, Índia), o prémio de melhor realizador (Festival Internacional de Cinema de Pune, Índia), prémio da Lusofonia do Famafest, prémio do festival SIGNIS (Milão), prémio do público e menção honrosa da Amnistia Internacional (Indie Lisboa) e prémio de melhor argumento (Bursa, Turquia).

Terra Sonâmbula passou entretanto pelas salas de cinema da África do Sul e Moçambique, e participou em festivais de cinema de Montreal, Rio de Janeiro, Mannheim, Teerã, Londres, Copenhague, Varsóvia, Zanzibar, Granada, Melbourne, Amesterdão, Harare, Oslo e Cartago.

Em Janeiro deste ano o filme abriu a mostra Global Lens 2009, evento com uma dezena de filmes que ocorreu no Museu of Modern Art de Nova York (MOMA), e seguiu depois para exibição em mais 35 cidades norte-americanas, distribuído pela The Global Film Iniciative.

A película recebeu também elogiosas referências de prestigiados órgãos de informação, como o New York Times.

Há duas semanas atrás, o mesmo filme foi posto à venda no Reino Unido em DVD, com o título Sleepwalking Land e a chancela da HB Films.


Recorde-se que um outro romance de Mia Couto, O ÚLTIMO VOO DO FLAMINGO, foi objecto de transposição cinematográfica pelo realizador moçambicano João Ribeiro, prevendo-se para breve a sua estreia internacional.                                     


______________________________________________

______________________________________________
                                                    

   MIA COUTO EDITADO NO MÉXICO


O livro VENENOS DE DEUS REMÉDIOS DO DIABO será editado brevemente no México, na prestigiada editora Almadia.
Pela primeira vez, um autor moçambicano é publicado naquele país da América Latina. Com esta publicação no México, a lista de edições de Mia Couto em países estrangeiros aumenta para vinte quatro.

Já antes, Mia Couto havia sido editado na Argentina e no Chile. Na Espanha o autor já publicou vários romances e livros de contos. Neste mês será publicada em Barcelona a tradução do romance O OUTRO PÉ DA SEREIA.








ENSAIOS DE MIA COUTO


Fotografia de Alfredo Cunha




____________________________________________________
PENSATEMPOS

Nestes Pensatempos transparece a preocupação de provocar debate, sugerindo alternativas inovadoras, questionando os modelos de pensamento e interrogando os lugares-comuns que aprisionam o nosso olhar perante os desafios da actualidade. O prazer já encontrado na escrita de quem se diz estar a reinventar a língua portuguesa ressurge agora no gosto de pensar o nosso mundo e o nosso tempo.


___________________________________________________________

E SE OBAMA FOSSE AFRICANO? E OUTRAS INTERINVENÇÕES

Na sequência do anterior Pensatempos, Mia Couto ressurge com um conjunto de textos de intervenção que resulta da sua participação em encontros públicos nos últimos anos. São textos de reflexão crítica de um autor de ficção que, ao mesmo tempo que reinventa o seu universo, não abdica da sua missão de pensar o mundo.
As intervenções abordam temas que vão da política à literatura, da cultura à antropologia, mas todos eles confirmam como o escritor moçambicano faz da sensibilidade poética um modo de entender a complexidade do nosso tempo.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Lançamento de "Jesusálem" de Mia Couto

JESUSALÉM - A viagem interior de Mia Couto

Pedem-me palavras primeiras ao lançamento em solo pátrio do livro Jesusalém; pedem-me uma leitura, um olhar, um escorço a um escritor que há muito se remessou, com o seu engenho, para horizontes que não se confinam somente as fronteiras mundiais da língua da sua escrita, do seu discurso literário. Que palavras para um transfronteiriço, um disseminador de linguagens, de imagens, de identidades de um rincão dos trópicos perdidos, para a geografia do mundo, para o mapa dos saberes perenes, senão o enaltecimento desse magistério, desse exemplo que nunca se escorou nas efémeras facilidades tropicais, por valer-se sempre do seu talento, da sua arte.

Na moeda da nossa cultura há muito que Mia Couto deixou de se inscrever no reverso, nesse lado onde pontificam outras nobres figuras das nossas letras e artes, porque transladou, por mérito, por labor, ao anverso, e tornou-se na efígie da nossa moeda na transacção no grande bazar das culturas. A essa moeda já não se pergunta pela sua validade, mas pedem-se trocos, quer-se conhece-la nas suas múltiplas vertentes, nos seus variados espelhos. No dédalo das culturas, a obra do Mia, para nosso gáudio, não foi devorada pelo Minotauro sedento do efémero, do passadiço, porque o fio de Ariadne, o fio da perseverança, o fio da qualidade, o fio da salvação ao olvido, o guia pelos labirintos do mundo da literatura saudável, robusta, perene, e sem artifícios, como dizia Hemingway. Com Mia ganha a literatura moçambicana, ganham os escritores, e ganha este País ainda relutante em assumir que a grande bandeira na memória dos povos é a cultura drapejando pelo mundo nos seus variados tentáculos.
Ao ler Jesusalém, ocorreu-me, pela estratégia, o Engenhososo Fidalgo D. Quixote de la Mancha.



Cervantes, com a sua obra, erigiu, como todos sabemos, o fundamento do mundo romanesco moderno: a ambiguidade. Não há uma verdade, há muitas verdades. Verdades relativas que se vão entrelaçando, formando um nó que o leitor vai desenlaçando com o prazer ou desprazer, dependendo do engenho do autor. Em Cervantes, D. Quixote sai para o mundo, desfazendo injustiças e protegendo damas, personificadas no amor imaginário pela Dulcineia Del Toboso. Em Jesusalém os personagens saem do mundo e pervagam pelos labirintos da vida interior, esquecendo injustiças e riscando damas da memória. Em Cervantes o Fidalgo D. Quixote, acompanhado do seu escudeiro Sancho Pança, quer endireitar o mundo. Em Jesusalém, Silvestre Vitalício e o serviçal Zacaria Kalach, escudeiro nos modernos dizeres, querem sair da História, da selva dos tempos modernos. Nos dois a viagem. Num, do imaginário à realidade, noutro, da realidade crua, sangrenta, ao imaginário interior.
Algo nos perturba nas primeiras páginas de Jesusalém: o título e os Livros - divisores de capítulos, alusão aos livros biblícos. À partida somos perseguidos por essa imagem secular e tutelar de Jesus, o Cristo de uma moral, de uma teologia. Perguntamo-nos se a alusão aos Livros - Um, Dois e Três -, é o egresso, a saída dos livros canónicos em direcção ao mundo do Cristo descrucificado, ou um artificio da efabulação, um jogo de espelhos? A poeta Sophia de Mello Breyner Andresen não nos ajuda muito ao dizer que “Escuto mas não sei⁄ Se o que oiço é silêncio ⁄ Ou deus”. Mas as dúvidas dissipam-se quando o emblemático Silvestre Vitalício convoca os eremitas e anuncia que a terra da iniciação chamar-se-á Jesusalém, e os que nela irão conviver serão desbaptizados.



À excepção do mais novo, por sinal o narrador, os principais personagens da trama convertem-se a nova ordem. Orlando Macara, passa a Tio Aproximado; Olindo Ventura a Ntuzi-sombra; Ernestinho Sobra a Zacarias Kalach; Mateus Ventura A Silvestre Vitalício. O mais novo mantêm-se como mwanito, diminutivo de rapaz em chissena, língua do centro do país, por o pai achar que “…ainda está nascendo”. Formaliza-se, na ordem simbólica, o destino dos personagens, dando, por conseguinte, sinal de partida e coerência ao que Vitalício dissera ao Mwanito, o afinador de silêncios: “…vocês não podem sonhar nem lembrar. Porque eu próprio não sonho, nem lembro.” Quer-se inaugurar uma nova ordem, uma nova gramática, uma sintaxe fora do mundo caótico, desordenado, onde outrora viveram. Para tal é preciso instaurar um mundo, uma humanidade no dizer do autor. Jesusalém é o espaço demarcado, o nicho que se quer diferente. “Um dia, Deus nos virá pedir desculpa, diz Vitalício ao grafar, por cima da tabuleta indicativa de Jesusalém, a frase: “Seja bem-vindo, Senhor Deus.”



A abertura dos capítulos e subcapítulos dos Livros comportam, no meu entender, Salmos – permitam-me invocar o sagrado termo para o romance. Tirando as citações do sociólogo e também poeta francês Jean Baudrillard, e do escritor Herman Hesse, Mia elegeu para seus salmos quatro grandes poetas, sendo três do espaço lusófono- as brasileiras Adélia Prado e Hilda Hilst, e a portuguesa Sophia de Mello Breyener Andresen -, e uma de língua castelhana, a argentina Alejandra Pizarnick. Interessante notar na construção do romance, no jogo de afectos e desafectos, a escolha de mulheres poetas para os cantos, e da mulher mãe, amante, esposa, como desencadeadora da trama romanesca. Este jogo entre os vates dos salmos, e os personagens do romance - maioritariamente masculinos , dá-nos a dimensão indescritível do mundo efabulatório de Mia Couto. Nos cantos, as musas, as deusas, o sagrado feminino expressando-se na mais elevada linguagem: a poesia. No romance, no texto, a negação do feminino, a desacralização da mulher, a diabolização da criadora da vida. Que é isto senão a anfibologia, o jogo de sentidos, a ambiguidade do texto, a razão da literatura?
Diz a poeta Alejandra Pizarnick: “Yo me levanté de mi cadáver, e fui em busca de quien soy. Peregrina de mí…” No romance, pelo contrário, não se busca a identidade, não se procura o eu, quer-se, isso sim, matar a memória, esquecer o mundo vivido, e invocar uma nova ordem que se fundamente no silêncio. Um silêncio com um Deus que Hilda Hilst alvitra como “O Deus de que vos falo ⁄ Não é um Deus de afagos ⁄ É mudo. ⁄ Está só…”. Mas é em Sophia de Mello que está o canto primeiro e último, a voz iniciática em “ Sou o único homem a bordo do meu barco. ⁄ Os outros são monstros que não falam, ⁄ Tigres e ursos que amarrei aos remos, ⁄ E o meu desprezo reina sobre o mar. ”, e o canto último em “ Nunca mais amarei quem não possa viver ⁄ Sempre, ⁄ Porque eu amei como se fossem eternos ⁄ A glória, a luz e o brilho do teu ser, ⁄ Amei-te em verdade e transparência ⁄ E nem sequer me resta a tua ausência, ⁄ És um rosto de nojo e negação ⁄ E eu fecho os olhos para não te ver. ⁄ Nunca mais servirei senhor que possa morrer.” Está dito.
O anátema a uma realidade cruel, predadora, que nos desumaniza com discursos envenenados, máquinas trituradoras de boas consciências com a efemeridade de sonhos adocicados, é sinal de busca de outros horizontes que a nossa consciência, liberta das cartilhas castralizadoras da história, nos vai ditar nessa longa viagem pelo interior de nós mesmos.



Mia está ciente de que não há rincão neste mundo onde a voz humana não possa chegar. Os tempos modernos anularam barreiras, aproximaram mundos, desfizeram mitos. Não há mais mão autocrática que possa travar, por tempo indeterminado, a barreira da comunicação, o fluxo do pensamento. Em Jesusalém a ponte entre mundos nunca foi totalmente anulada, porque o Aproximado aproximou sempre os mundos, ainda que na vertente material, palpável. O mais interessante neste jogo de luzes e sombras, é a quebra dos silêncios advir do corpo de mulher, duma figura feminina transposta de outros oceanos, como que a provar que o mundo é tão grande e ao mesmo tempo pequeno na confluência dos sentimentos. Se o feminino desencadeou a partida, a fuga, o distanciamento, o mesmo feminino veio aglutinar e encadear outras ligações, outros discursos, outros silêncios, outras anarquias. É a Marta, simbolizando o distante ⁄ próximo, que anuncia ao Vitalício que não é o único a sair do mundo: -“ Caro Ventura, uma coisa lhe posso dizer: não foi só o senhor a sair do mundo.” O mundo está a nossa janela.
Se evoquei Cervantes, fi-lo com a deliberada intenção de dizer que a viagem, a procura de significados, é presença constante desde os antanhos da literatura. Se Cervantes guiuo o seu fidalgo pelas terras da Mancha, Aragão e Catalunha, a busca de verdades, encontrou verdades relativas. Em Mia, a viagem é para a cura. E isso torna-se apodíctico quando o personagem Mwanito, diz: “ Deixo de ser cego apenas quando escrevo.” A escrita tornou-se orgânica, transformou-se em mais um dos sentidos do corpo. Sem ela a cegueira é incontornável. E para que isso não aconteça é preciso viajar, viajar sempre no barco da escrita. Mia busca sonoridades, sons que a pauta da vida não grafou. E é nessa viagem infinita, nessa incessante busca do som puro que a literatura, o romance inaugurado por Cervantes há quatro séculos, encontra a sua vida, o seu oxigénio. Com Mia, mais que com os inauguradores de correntes, os exegetas do fim do romance, encontramos o prazer da efabulação, o encanto de criar, de amar a palavra, de usufruir o texto.


Fico grato por te ter como lábaro - não o estandarte das iniciais de Jesus Cristo na época de Constantino, a efígie literária nos labirintos do mundo da escrita. Este Jesusalém que se quer como o livro dos livros ensina-nos que nesta selva de desigualdades, de alienação global, de homogeneização de ambições mesquinhas e terrenas, o grande desafio está em abrir até aos limites a grande coutada da vida: a nossa consciência.

______________
*Texto lido na apresentação do livro “Jesusalém”, de Mia Couto por Ungulani Ba Ka Khosa
-----------------------


________________











domingo, 21 de março de 2010

«Terra Sonâmbula» entre os 10 romances mais representativos da língua portuguesa

Universidade de Coimbra escolhe 10 romances mais representativos da língua portuguesa

Fonte: LUSA
20.05.2010 - 20:36


Obras de Eça de Queirós, José Saramago, Machado de Assis e Mia Couto foram hoje escolhidas para integrar os dez romances mais representativos da literatura de língua portuguesa pelo júri de um concurso da Imprensa da Universidade de Coimbra.

Reunido hoje em Coimbra, o júri do concurso “10 Paixões em Forma de Romance”, selecionou “Os Maias” de Eça de Queirós, “Memorial do Convento”, de José Saramago, “Dom Casmurro”, de Machado Assis, e “Terra Sonâmbula”, de Mia Couto.

Entre os “10 Mais” escolhidos pelo júri, que integrou os escritores José Luís Peixoto e João Tordo e vários docentes da Faculdade de Letras (FLUC), figuram ainda “Amor de Perdição”, de Camilo Castelo-Branco, “Aparição”, de Vergílio Ferreira, “O Delfim”, de José Cardoso Pires, “Esteiros”, de Soeiro Pereira Gomes, “A Sibila”, de Agustina Bessa-Luís, e “Sinais de Fogo”, de Jorge de Sena.

Estes dez romances foram eleitos como os mais representativos da literatura de língua portuguesa de entre as 30 obras que tinham sido anteriormente mais votadas por docentes, estudantes e funcionários da Universidade de Coimbra.

Segundo o director da Imprensa da Universidade de Coimbra (IUC), João Gouveia Monteiro, para chegar a esta lista final “o júri teve em conta a diversidade e representatividade de diferentes épocas, correntes, geografia e géneros, bem como a expressão da vontade dos votantes”.

O também presidente do júri disse hoje à agência Lusa que foi decidido divulgar os “10 Mais” por ordem alfabética, em bloco, sem detalhar os votos que recaíram sobre cada um dos romances.

O objectivo deste concurso foi “tomar esta escolha como um pretexto para falar de livros e de boa literatura”, na sequência de outras iniciativas levadas a cabo pela IUC.

Assim, ao longo do próximo ano letivo, a IUC, em parceria com a Biblioteca Geral e o Centro de Literatura Portuguesa da FLUC, irá promover diversos eventos sobre as 10 obras vencedoras, nomeadamente exposições e tertúlias.

Está já prevista uma exposição sobre estes romances e os seus autores na Sala de São Pedro da Biblioteca Geral, patente entre 10 de Janeiro e 11 de Fevereiro, adiantou o director da IUC.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

CRÓNICAS DE MIA COUTO


Fotografia de Alferdo Cunha






__________________________________________________________
O PAÍS DO QUEIXA-ANDAR

A Porta

Era uma vez uma porta que, em Moçambique, abria para Moçambique. Junto da porta havia um porteiro. Chegou um indiano moçambicano e pediu para passar. O porteiro escutou vozes dizendo:
- Não abras! Essa gente tem mania que passa à frente!
E a porta não foi aberta. Chegou um mulato moçambicano, querendo entrar. De novo, se escutaram protestos:
- Nao deixa entrar, esses não são a maioria.
Apareceu um moçambicano branco e o porteiro foi assaltado por protestos:
-Não abre! Esses não são originais!
E a porta não se abriu. Apareceu um negro moçambicano solicitando passagem. E logo surgiram protestos:
- Esse aí é do Sul! Estamos cansados dessas preferências...
E o porteiro negou passagem. Apareceu outro moçambicano de raça negra, reclamando passagem:
- Se você deixar passar esse aí, nós vamos-te acusar de tribalismo!
O porteiro voltou a guardar a chave, negando aceder o pedido.
Foi então que surgiu um estrangeiro, mandando em inglês, com a carteira cheia de dinheiro. Comprou a porta, comprou o porteiro e meteu a chave no bolso.
Depois, nunca mais nenhum moçambicano passou por aquela porta que, em tempos, se abria de Moçambique para Moçambique.

_____________________________________________________________
CRONICANDO

Escrevências desinventosas

Estava já eu predispronto a escrever mais uma crónica quando recebo a ordem: não se pode inventar palavra. Não sou homem de argumento e, por isso, me deixei. Siga-se o código e calendário das palavras, a gramatical e dicionária língua. Mas ainda, a ordem era perguntosa: «já não há respeito pela língua-materna?»
Não é que eu tivesse intenção de inventar palavras. Até porque acho que palavra descobre-se, não se inventa. Mas a ordem me deixou desfeliz. Primeiro: porquê meter a mãe no assunto Por acaso sou filho de língua, eu? Se nasci, mesmo inicialmente, foi de duplo serviço genético, obra inteira. Segundo: sou um homem obeditoso aos mandos. Resumo-me: sou um obeditado. Quando escrevo olho a frase como se ela estivesse de balalaica, respeitosa. É uma escrita disciplinada: levanta-se para tomar a palavra, no início das orações. Maiusculiza-se deferente. E, em cada pausa, se ajoelha nas vírgulas. Nunca ponho três pontos que é para não pecar de insinuência. Escrita assim, penteada e engomada, nem sexo tem. Agora acusar-me de inventeiro, isso é que não.
(...) Voltando à língua fria: não será que o português não está já feito, completo, made in e tudo? Porquê esta mania de estrear caminhos, levantando poeira sem a devida direcção? Estrada civilizada é a que tem polícia, sirenes serenando os trânsitos. Caso senão, intransitam-se as vias, cada um conduzindo mais por desejo que por obediência.

Excerto.


Para ver outros artigos sobre Mia Couto, clique aqui.

CONTOS E NOVELAS DE MIA COUTO

 Fotografia de Alfredo Cunha






  OS CONTOS                                                                              

____________________________________________________________
VOZES ANOITECIDAS 
O que mais dói na miséria é a ignorância que ela tem de si mesma. Confrontados com a ausência de tudo, os homens abstêm-se do sonho, desarmando-se do desejo de serem outros. Existe no nada essa ilusão de plenitude que faz  parar a vida e anoitecer as vozes.

Mia Couto, in texto de abertura da obra.


-------------------
«(...) Ele ficou deitado a respirar. A vida dele estava toda ali, repartida nas costelas que subiam e desciam. Neste deserto solitário, a morte um simples deslizar, um recolher de asas. Não um rasgão violento como nos lugares onde a vida brilha.
- Mulher
- disse ele com voz desaparecida. - Não lhe posso deixar assim.
- Estás a pensar o quê?
- Não posso deixar aquela campa sem proveito. Tenho que matar-te.
- É verdade, marido. Você teve tanto trabalho para fazer aquele buraco. É uma pena ficar assim.
- Sim, hei-de matar você; hoje não, falta-me o corpo.

Ela ajudou-o a erguer-se e serviu-lhe uma chávena de chá.
- Bebe, homem. Bebe para ficar bom, amanhã precisas da força.
O velho adormeceu, a mulher sentou-se à porta. Na sombra do seu descanso viu o sol vazar, lento rei das luzes. Pensou no dia e riu-se dos contrários: ela, cujo nascimento faltara nas datas, tinha já o seu fim marcado.». 

-------

Excerto do conto A Fogueira.

____________________________________________________________
CADA HOMEM É UMA RAÇA 

(...)Tem dúvida? Então vou apresentar testemunha. Vocês vão ver, esperem lá.
E saía, deixando os clientes na expectativa. O Afonso era calmado pelos restantes. (....)
O barbeiro não tinha ido longe. Afastara-se apenas uns tantos passos para conferenciar com um velho vendedor de folhas de tabaco. Regressavam os dois, o Firipe e o velho:
- Está aqui o velho Jaimão.
E virando-se para o vendedor, Firipe ordenava:
-Fala lá você, ó Jaimão.
O velho tossia toda a roquidão antes de confirmar.
- Sim. Na realmente, vi o homem da foto. Foi cortado o cabelo dele aqui. Sou custumunha.
E choviam perguntas dos clientes:
-Mas você chegou a ouvir esse estrangeiro? Falava qual língua?
- Shingrese.
-E pagou com qual dinheiro?
- Com kóbiri.
- Mas qual, escudo?
- Não. Era dinheiro de fora.
O barbeiro satisfeitava-se, peito em proa. De vez em quando, Jaimão ultrapassava o combinado e arriscava suas iniciativas:
- Depois, esse homem foi no bazaro comprar coisas.
- Que coisas?
-Sabola, raranja, sabau. Comprou fódia, também.
- Agora é que te apanhei: um homem desses não compra fódia. É história isso. Um tipo dessa categoria fuma tabaco de filtro. Jaimão, você só está a contar mentira, canganhiça, só mais nada.
O Jaimão admirava-se com súbita teima. Olhava, receoso, o barbeiro e ainda tentava um último argumento:
- Uááá, não é mentira. Até me lembro: foi um sábadu.

Excerto do conto Sidney Poitier na barbearia de Firipe Beruberu.
 ____________________________________________________________
ESTÓRIAS ABENSONHADAS 

— Cumprimenta também você!
Olhei a margem e não vi ninguém. Mas obedeci ao avô, acenando sem convicções. Então, deu-se o espantável: subitamente, deixámos de ser puxados para o fundo. O remoinho que nos abismava se desfez em imediata calmaria. Voltámos as barco e respirámos os alívios gerais. Em silêncio, dividimos o trabalho de regresso. Ao amarrar o barco, o velho me pediu:
—Não conte nada o que se passou. Nem a ninguém, ouviu?
Nessa noite, ele me explicou suas escondidas razões. Meus ouvidos se arregalavam para lhe decifrar a voz rouca. Nem tudo entendi. No mais ou menos, ele falou assim: nós temos os olhos que se abrem para dentro, esses que usamos para ver os sonhos. O que acontece, meu filho, é que quase todos estão cegos, deixaram de ver esses outros que nos visitam. Os outros? Sim, esses que nos acenam de outra margem. E assim lhes causamos uma total tristeza. Eu levo-lhe lá nos pântanos para que você aprenda a ver. Não posso ser o último a ser visitado pelos panos.
—Me entende?
Menti que sim. Na tarde seguinte o avô me levou uma vez mais ao lago. Chegados à beira do poente ele ficou a espreitar. Mas o tempo passou em desabitual demora. O avô se inquietava, erguido na proa do barco, palma da mão apurando as visitas. Do outro lado, havia menos que ninguém. Desta vez, também o avô não via mais que a enevoada solidão dos pântanos.
____________________________________________________________
CONTOS DO NASCER DA TERRA 

Era uma vez uma menina que pediu ao pai que fosse apanhar a lua para ela. O Pai meteu-se num barco e remou para longe.
Quando chegou à dobra do horizonte pôs-se em bicos de sonhos com as duas mãos, com mil cuidados. O planeta era leve como uma baloa.

Quando ele puxou para arrancar aquele fruto do céu se escutou um rebentamento. A lua se cintilhaçou em mil estrelinhações. O mar se encrispou, o barco se afundou, engolido num abismo. A praia se cobriu de prata, flocos de luar cobriram o areal. A menina se pôs a andar ao contrário de todas as direcções, para lá e para além, recolhendo os pedaços lunares. Olhou o horizonte e chamou:

Pai!

Então, se abriu uma fenda funda, ferida de nascença da própria tera. Dos lábios dessa cicatriz se derramava sangue. A água sangrava? O sangue se aguava? E foi asssim. Essa foi uma vez.

____________________________________________________________
NA BERMA DE NENHUMA ESTRADA E OUTROS CONTOS


Mia Couto seleccionou, de entre publicação dispersa por jornais e revistas ao longo de anos bem recentes, estes trinta e oito textos que agrupou sob o título Na Berma de Nenhuma Estrada e outros contos. Cada novo encontro com a sua escrita significa uma viagem a que não apetece pôr termo. A intensidade das personagens, a multiplicidade de registos em que as várias tramas ocorrem, o universo do fantástico e do sobrenatural coexistindo em perfeita sintonia com o dia-a-dia da tradição, da cultura e da vivência experienciadas, a capacidade de efabulação, a oralidade que emana da palavra escrita transformando-a em puro som, são portos a que acostamos e que nunca desvendamos por completo. Façamos escala em «Fosforescências», «O último ponto cardeal», «O fazedor de luzes», «Os amores de Alminha», «Os gatos voadores»; tomemos o rumo de «As cartas», «O escrevido», «Ave e nave»; voguemos ao sabor de «A multiplicação dos filhos», «As lágrimas de Diamantina», «O amante do comandante»; deixemos que as ondas nos levem até «Rosita»; e mergulhemos profundamente nas águas, agitadas às vezes, tranquilas outras, do imaginário inesgotável do autor de Na Berma de Nenhuma Estrada e outros contos.

 ____________________________________________________________
O GATO E O ESCURO 

O Gato e o Escuro revela-nos uma faceta inédita da arte de Mia Couto, já que a escrita para crianças não tem sido o seu território.
Explorar este livro, em que a criatividade literária e linguística do texto e as ilustrações vibrantes de Danuta Wojciechowska mutuamente se iluminam, será um prazer para as crianças. E para os adultos também. 


Para ver mais sobre este livro, consulte o artigo sobre a literatura infantil, neste blog.
  ____________________________________________________________
O FIO DAS MISSANGAS 

Uma vez mais Mia Couto regressa ao conto, género literário que parece ser o da sua maior realização. Estórias breves mas contendo, cada uma delas, as infinitas vidas que se condensam em cada ser humano. Uma vez mais, a linguagem é trabalhada como se fosse delicada filigrana, confirmando o que o autor disse de si mesmo: «conto estórias por via da poesia».

São vinte e nove contos unidos como missangas em redor de um fio, que é a escrita encantada de um consagrado fabricador de ilusões.



  AS NOVELAS                                                                             ____________________________________________________________

 MAR ME QUER   

Dona vizinha desconfia de desventura dos outros. Só lhe interessa as antiguidades de que fiz parte. E eu, para subterfugir, aldrabo umas lembranças, desenrasco uns pensamentos.
Até, um dia, lhe perguntei:
Por que só minhas lembranças, as pessoais?
A vizinha não respondeu. Antes, retrucou assim:
Bom, se lhe custa, então, me conte uns sonhos...
Mas eu nem lembro nunca dos sonhos que me visitam enquanto durmo! É que temos horários diferentes: eu e o sonho. E aviso:
— Hão-de ser sonhos falsificados...
— Não importa.
(...)— Não faz mal, Zeca Perpétuo. Hoje, eu até podia pagar para alguém me contar os sonhos.
Riu-se, em esboço. Mas era uma só tristeza molhada. Depois, deixei minha vizinha em seu assento e fui regressando, em passo lento, a minha casa. Luarmina se entranhou na sua pequena mania como se descosturasse um pano nenhum:
— Mar me quer, bem me quer...
____________________________________________________________
A CHUVA PASMADA

Como ele sempre dissera:
o rio e o coração, o que os une?
O rio nunca está feito, como não
está o coração. Ambos são sempre
nascentes, sempre nascendo.
Ou como eu hoje escrevo:
milagre é o rio não findar mais.
Milagre é o coração começar sempre
no peito de outra vida.

 Para ver mais sobre este livro, consulte artigo sobre literatura infantil, neste blog.




LinkWithin

Related Posts with Thumbnails